Sínodo sobre os Jovens

Sínodo sobre os Jovens Foto: L`osservatore Romano

*Segundo o Dicionário, a palavra sínodo tem sua origem no idioma grego - sýnodos - e quer dizer “caminhar juntos” . Em um sínodo diocesano, trata-se de uma “assembléia de eclesiásticos” e leigos “convocados pelo seu prelado ou outro superior” que se reúnem com o propósito de “caminhar juntos”, seguindo um determinado plano.

 

Dom Orani Tempesta

A Igreja Católica se prepara para a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, cujo tema a ser tratado será: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.   Espera-se que este Sínodo chegue a um consenso, o qual contenha medidas visando a orientá-los no discernimento sobre sua fé e sobre perspectivas para seu futuro. Que o acompanhamento eclesiástico ajude-os na escolha certa, alcançando, assim, a felicidade em tudo aquilo que fizerem de acordo com a vontade de Deus, para ajuda ao próximo, em busca de uma sociedade melhor. Que as decisões tomadas nesse Sínodo auxiliem os jovens a discernir de que forma é possível uma vida toda de serviço ao outro, uma vez que nisso consiste a vida cristã.  

 

Vocação, do latim vocare, significa chamar. Cada pessoa recebe esse chamado de Deus em um momento específico de sua vida. Não se conhece esse momento. Para alguns ele é logo na infância, mas para outros é já na maturidade. Não existem fórmulas onde estão escritos os procedimentos necessários para se descobrir a vocação que Deus determinou a cada um; justamente por isso muitos sentem dificuldades em descobri-la sozinhos. Porém, um caminho de oração e acompanhamento ajuda no esclarecimento dessa dúvida que permeia a juventude. O objetivo do Santo Padre, o Papa Francisco, ao convocar esse Sínodo, é encontrar uma maneira para que os jovens tenham cada vez mais conhecimento sobre a vida na Igreja e da Igreja, que tenham força, vontade e coragem de seguir o chamado de Deus, mesmo nesse momento do mundo muitas vezes tão hostil, agressivo e desumano.

 

São Francisco de Assis, após sentir o chamado de Deus, rezava uma pequena oração diante do Crucifixo de São Damião, na qual ele dizia: “Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas do meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Dai-me, Senhor, o reto sentir e conhecer, a fim de que eu possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabais de dar-me. Amém”. Esta simples e singela oração mostra a inteira entrega desse santo à vontade de Deus. A exemplo de São Francisco, somos também convocados a seguir a Cristo e servir aos irmãos em nossa vocação, nos entregando inteiramente na missão que nosso Deus nos incumbiu.

 

Podemos observar ao nosso redor, no dia-a-dia, que as pessoas estão sempre sem tempo, correndo, esquecendo os verdadeiros valores. Valores estes que, diariamente, são substituídos pelos que destroem a família, a vida, a bioética, a moral e a ética. Mas, o que isso tem a ver com vocação? Todo cristão católico é chamado a ser missionário no ambiente em que vive. Seja no trabalho, na escola, na família, onde for. É necessário um testemunho de vida para as pessoas. “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras” dizia o já citado São Francisco. Todos também são convocados a denunciar as mazelas e injustiças do mundo, lutando para que a verdade seja soberana e que a dignidade de todos seja garantida.

 

A era da tecnologia e informação tem, sem dúvida, ajudado muito as pessoas na atualidade, contudo ela também tem afastado as pessoas e dissipado o individualismo. O sociólogo polonês Zymount Bauman, em sua obra “Modernidade Liquida”, aborda exatamente esse afrouxamento dos laços interpessoais. A tecnologia, com seu desenvolvimento, tem cada vez mais atraído as pessoas. Essa atração é perigosa, uma vez que pode ser sadia se for moderada, mas caso não seja policiada pode tornar-se um vício. Um relato de um pai que está circulando na internet diz que, durante a infância de sua filha, ela estava descobrindo o mundo e suas belezas. Sempre que conseguia fazer alguma coisa nova chamava o pai, para que ele pudesse ver. Porém, ele nunca tinha tempo. Um dia, ela se posicionou embaixo do celular do pai e disse que aquele era o único modo de ele olhar para ela, estando atrás do celular em que o pai estava digitando. Precisa-se de um policiamento coletivo, visando à prevenção, para que não seja necessário chegar a tal ponto.

 

Para se realizar as missões anexas a cada vocação, é necessária a fé, o outro ponto tratado no Sínodo. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), e partindo desse princípio, possui-se plena convicção que esse Dom de Deus é essencial para nossa vida. A fé que professamos não pode ser vivida apenas no momento da Santa Missa. Como é triste ver que muitos passam da porta da Igreja depois da missa e parece que não entenderam nada da mensagem de Deus! Uma pequena estorinha de autor desconhecido diz que um padre certa vez percebeu que uma criança sempre ouvia sua homilia tampando um dos ouvidos com uma mão. Curioso, o padre, após a missa, foi até a criança e perguntou-lhe o porquê do gesto. A criança respondeu que durante toda a semana os seus pais brigavam, e sempre um deles dizia ao que estava errado que tudo o que foi dito na homilia entrou por um ouvido e saiu pelo outro, como diz no ditado popular, e por conta disso ela tampava o ouvido para que tudo o que fosse dito não conseguisse sair. Esta deve ser a nossa atitude. Esta criança da estória, em sua ingenuidade, nos mostra de uma forma bem impactante uma realidade que muitas vezes nem se percebe fazer parte. Temos que buscar sempre um maior aprofundamento de nossa fé. Assim como um carro necessita do combustível para se manter em movimento, é necessária a fé para manter o homem em seu propósito.

 

O Sínodo tratará desse assunto que é muito pertinente na Santa Igreja Católica. Faz parte dos assuntos que realmente precisam ser debatidos, pois os jovens estão inseridos em uma sociedade que lhes fornece respostas erradas, nas quais os principais valores de sua fé são tidos como sem importância e ultrapassados, e valores como a cultura da violência e da morte são tidos como positivos e naturais.  Os bispos, que serão eleitos pelas Conferências Episcopais para representá-las no Sínodo dos Jovens, reunidos terão a árdua tarefa de debater e encontrar soluções para estas problemáticas apresentadas. Convivendo e evangelizando os jovens, os Bispos deverão procurar escutar seus jovens para sentir as suas angústias e pavimentar esperanças para a sua devida evangelização. É de extrema importância toda a oração do povo de Deus para que, através desse clamor, seus pastores, guiados pelo Espírito Santo, consigam as respostas.

 

Que o próximo Sínodo sobre os Jovens nos ajude a transmitir a nossa fé e testemunhar o Ressuscitado, que está no meio de nós!

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

* nota da Redação

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