Os Últimos Jedi, ou como o engajamento ideológico está destruindo o cinema

Por Leandro Ruschel

 

Quando Star Wars estrou em 1977, poucos acreditavam no seu sucesso. Era uma fantasia escrita por um jovem diretor com um orçamento bastante limitado, contando com atores desconhecidos no elenco. O projeto havia sido recusado por vários estúdios antes de ser aceito pela 20th Century Fox.

 

Contra todas as chances, o filme foi um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, criando um verdadeiro mito moderno. E o que explica tal sucesso? Exatamente o estudo dos mitos. George Lucas havia estudado Joseph Campbell e o seu “Herói de Mil Faces”, a obra que demonstra a conexão entre os diversos mitos que surgiram na história humana, especialmente a “Saga do Herói”, o roteiro básico de qualquer estória: o sujeito que é chamado, usualmente em tempos de crise, para uma aventura ao desconhecido onde correndo riscos mortais vai em busca de meios para combater a corrupção e restabelecer a ordem na sociedade. Dentro desse mito fundador há dezenas de outros, como a dualidade bem/mal, masculino/feminino, pai/filho e o ciclo de criação e destruição.

 

Mesmo com sérias deficiências técnicas, a trilogia de George Lucas foi um sucesso retumbante porque ele toca profundamente a alma, pois na tela do cinema se passa a história de todos nós, replicada nas pequenas interações do dia a dia e também nas grandes sagas humanas.

 

Toda grande arte tem essa característica de identificação de uma verdade profunda e apresentação da mesma, mesmo que a estória apresentada não tenha acontecido. De uma certa maneira, ela é mais verdadeira que uma estória “real”, pois ela aconteceu milhões de vezes e continuará acontecendo ad infinitum.

 

O oposto à busca pela essência é a identificação que a essência é negativa e precisa ser destruída, o que de certa forma representa exatamente o mal. Toda cultura pós-moderna é baseada nessa premissa: o mundo é injusto e não tem conserto. Ele precisa ser destruído e recriado. Exatamente por conta disso a arte virou a representação da inveja e do ressentimento, perdendo a sua beleza.

 

O cinema talvez apresente o maior nível de degradação, pois a sua expressão é mais direta. A partir do momento que diretores e roteiristas buscam apresentar na tela um panfleto ideológico ao invés de reproduzir uma meta realidade, não temos mais arte, mas propaganda. E mesmo para os partidários ideológicos da peça, há um vazio na experiência, pois se identificar com uma mensagem ideológica pode ser gratificante, mas não carrega nem uma fração de ser tocado por uma Verdade.

 

Os pós-modernistas afirmarão que nós mesmos construímos a “verdade”, mas a experiência mostra o quanto tais tentativas de construção de estruturas sociais distantes da nossa natureza podem ser catastróficas.

 

A destruição da sociedade por meio dos pós-modernistas, que também podem ser chamados de neo-marxistas, passa pela afirmação categórica que a estrutura social vigente é corrupta e injusta. A representação de tal estrutura seria o ‘patriarcado branco”, com sua cultura “opressiva”, “imperialista”, “racista”, “mosógina”, “elitista”, “capitalista” e “preconceituosa”, derivada da tradição judaico-cristã, uma das bases da Civilização Ocidental, em conjunto com a cultura greco-romana e com elementos do Iluminismo.

 

A revolta contra a própria existência é o motor do pós-modernismo. A inveja e o ressentimento são os seus combustíveis, desencadeando uma série de processos mentais que justificam praticamente qualquer crime, pois tudo é feito em nome da Utopia: a sociedade perfeita, igualitária, permeada pelo amor e pela bonança repartida entre todos, sem nenhuma hierarquia. É tal visão utópica que é comparada à realidade existente hoje, onde se chega a conclusão que vivemos num mundo marcado pela opressão.

 

Agora, se você comparar o “patriarcado” atual com todas as sociedades que o ser humano já construiu, verá que vivemos com mais conforto e liberdade do que em qualquer outra época. A pobreza sempre foi a realidade humana absoluta, assim como a escravidão e a falta de liberdade e direitos individuais. O valor cristão que mudou completamente a história foi a percepção que cada indivíduo representa uma centelha divina e portando conta com direitos naturais, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade e a organização social deve garantir tais direitos. Os modelos políticos derivados desses valores possibilitaram o surgimento de sistemas que geraram melhor qualidade de vida para todos, especialmente para aqueles que se encontram na base da hierarquia de competência. A escravidão foi aos poucos sendo restrita de forma voluntária pela primeira vez na história, assim como houve gradualmente a garantia dos mesmos direitos entre homens e mulheres e a abertura da oportunidade do indivíduo poder alcançar uma condição de vida melhor através de trabalho duro e oferta de algo valioso para a sociedade, enquanto os mal-intencionados eram punidos. Os líderes passaram a ter que contribuir para a sociedade ou poderiam ser substituídos e punidos. Ser conservador não significa ser contra qualquer mudança, mas sim perceber o longo processo de acumulação de conhecimento ao longo da história e utilizá-lo na hora de buscar mudanças, com muito cuidado e sem impor mudanças através da concentração de poder.

 

Na visão pós-moderna, não é o indivíduo a principal célula da sociedade, mas sim o grupo que o indivíduo faz parte. A sociedade seria uma estrutura opressiva, onde os grupos no poder exploram os demais. Caberia então a tais grupos a necessidade de se organizar para tomar o poder e acabar com a opressão. Assim, você passa a ser definido pelo seu sexo, pela sua religião, pela cor de pele e pela sua posição na hierarquia social e pelo seu comportamento sexual, entre outros atributos. E por definição o poder concentrado será exercido de forma violenta, pois a própria violência é necessária para lidar com aqueles que não querem “perder privilégios”.

 

Em tal visão, as mulheres são exploradas pelos homens, os homossexuais pelos heterossexuais, os pobres pelos ricos, os negros pelos brancos e assim por diante. Para cada um desses grupos, há uma infinidade de subgrupos, cada um brigando pelo título de mais oprimido, o que daria mais legitimidade para alcançar e manter o poder. Qualquer que seja o grupo oprimido, o opressor é claramente visualizado: o macho heterossexual, especialmente o heterossexual cristão ou judeu que tenha uma condição financeira melhor. Esse é o inimigo da humanidade, cujo único ato possível de contrição seria o engajamento ao pós-modernismo.

 

Tais elementos podem muito bem ser observados no filme “Os Últimos Jedis”. Se você não quiser ler nenhum spoiler, sugiro parar por aqui. Estando avisado, sigamos em frente.

 

O grande personagem da peça é Luke Skywalker, o herói da clássica saga. Ele que foi em busca da aventura para resgatar a República, destruída pela busca do poder absoluto do seu pai, Darth Vader, o mais icônico vilão da história do cinema. Luke é encontrado pela nova candidata a heroína, Rey, que vai em busca de conhecimento e ajuda. Ela encontra um Luke amargo e resignado à sua falha em treinar o seu sobrinho, que acabou virando o novo grande vilão, Kylo Ren. Luke está convencido que o melhor a se fazer é simplesmente acabar com a Ordem Jedi. A contragosto, resolve dar alguns ensinamentos à Rey, quando percebe que ela tem muito potencial, o que o assusta. Ele se nega a partir com ela para a luta pela Resistência, que está prestes a ser destruída pela Primeira Ordem, herdeira maligna do Império.

 

Luke chega ao ponto de queimar, com a ajuda do espírito do seu velho mestre, Yoda, os livros fundadores da Ordem Jedi e a árvore onde eles são guardados. Yoda chega a dizer que Rey não tem nada a aprender ali, ela já saberia tudo que precisa. Seriam apenas “velhos livros”. Mais, Yoda afirma que ela precisa aprender pelos erros de Luke, pela sua fraqueza!

 

A mensagem é clara. Luke, o representante do “patriarcado”, falhou pela sua insensibilidade e agressividade excessiva, quando pensou em matar Kylo ao perceber a ameaça que ele representava. Rey, uma mulher, acredita na bondade de Kylo e saberá liderar com mais “amor”. Mais, é revelado que ela não tem nenhuma relação de sangue com os outros personagens, quebrando a regra apresentada em todos os outros filmes da série, onde as habilidades Jedi seriam aparentemente uma característica genética.

 

Mas implodir todas as tradições é exatamente o objetivo do filme. Estudar a tradição Jedi, treinar por anos, ter que trabalhar duro para ser Mestre, isso é coisa do passado. A millennial Rey já sabe de tudo e está “empoderada” pela sua condição de mulher pobre oprimida.

 

Ao final, o representante do “patriarcado”, Luke, se redime dos seus pecados ao enfrentar o vilão Kylo para permitir a fuga da Resistência, liderada pela sua Irmã e agora por Rey, esgotando todas as suas forças e morrendo, dando espaço para a nova anti-mitologia pós-moderna da série Star Wars.

 

Ainda há tempo para o epílogo, onde a estória serve de inspiração para uma nova geração continuar o processo de “destruição das coisas velhas” e criação de um novo mundo “mais justo”.

 

PS: Alguns leitores chamaram a minha atenção para o fato que ao final do filme, aparece numa gaveta os livros sagrados da Ordem Jedi numa gaveta da Millennial Falcon. Ou seja, nem tudo está perdido! Também acredito que mais detalhes sobre a linhagem de Rey serão revelados na sequência. Veremos se J.J Abrams consegue salvar a série do atoleiro ideológico onde se meteu. There is a New Hope.


*Leandro Ruschel
Fundador do Grupo L&S. Especialista em investimentos. Apaixonado por filosofia e ciência política. Empreendedor. Admirador da excelência. Conservador.

 

Avalie este item
(1 Voto)

Mais notícias - Opinião

Cidades

    Política

      Tocantins

        Brasil

          Tocantins

            Opinião

              Topo