Educação e escolarização: confusão entre conceitos atrapalha aprendizado

Escola está assumindo responsabilidades que são essenciais para que as famílias possam exercer seu papel na sociedade? Escola está assumindo responsabilidades que são essenciais para que as famílias possam exercer seu papel na sociedade?

Maior proximidade entre família e escola é fundamental para solucionar conflitos e integrar papeis

 

 Por Lilian Martins, especial para a Gazeta do Povo

 

É consenso entre profissionais da área educacional: existe uma confusão entre os conceitos de educação e escolarização.


Educação, do latim educare, significa guiar, instruir, conduzir, ou seja, levar o indivíduo para o mundo exterior, para fora de si mesmo, preparando as pessoas para o mundo e para a vida em sociedade. Já a palavra escolarização, de acordo com o dicionário Aurélio, é o ato ou efeito de escolarizar; o conjunto de conhecimentos adquiridos na escola.

 

Para a psicóloga especialista em distúrbios de aprendizagem e orientadora educacional do Colégio Salesiano Santa Teresinha, de São Paulo (SP), Ana Tarcitano, educação é uma extensão do processo de formação de uma pessoa, e ocorre durante toda a vida. “É a transferência de valores éticos e morais e é de responsabilidade dos pais. Já a escolarização prepara a pessoa através do conhecimento que garante a aprendizagem na construção do saber”, diz.

Luciana Brites, pedagoga especialista em educação especial e psicopedagogia , acrescenta a importância de dar bons exemplos.

 

“Não somos o que falamos. Somos o que fazemos. Educação se dá através de exemplos. Não adianta ensinar uma coisa e fazer outra totalmente diferente”, explica. Para Luciana, que é uma das fundadoras do Instituto NeuroSaber, de Londrina (PR), na escolarização, o professor tem o papel de otimizar o aprendizado. “A escola faz parte da educação. Ela reforça a educação parental”, completa.

 

“Todos os eventos que fazem parte da formação de um indivíduo contribuem para sua educação, que na verdade é adaptável ao ambiente. Dependendo do ambiente em que estamos, nos comportamos de maneiras diferentes, temos respostas diferentes para cada situação. Saber adequar o comportamento aos ambientes e situações é o que compõe, basicamente, a educação”, continua Janaina Spolidorio, especialista em consciência fonológica e tecnologia aplicada à educação.

 

Para ela, a escolarização refere-se aos conhecimentos escolares. “A educação transparece de modo bastante aparente nas pessoas, em seus comportamentos, mas a escolarização é utilizada quando necessário”, argumenta.

 

Algumas famílias têm dificuldades de entender seu papel

Mesmo com diferenças claras apontadas por profissionais da educação, ainda existem muitas famílias que não compreendem seu papel na educação dos filhos e acabam transferindo esta tarefa para a escola. Por que isso acontece?

 

Janaina afirma que as mudanças no acesso à informação e no núcleo familiar desencadearam uma crise no paradigma educacional. “Vivemos tempos em que a informação é muito rápida e temos um acesso extremamente aberto a tudo. Há algumas décadas, com menos estímulos e com um núcleo familiar mais tradicional, no qual muitas mães ficavam em casa, educar fazia mais parte da tarefa da família”, explica.

 

Segundo ela, com o passar do tempo, as famílias foram se transformando, se tornando variadas. O avanço da tecnologia trouxe consigo novos comportamentos. “Muitos pais não sabem como lidar com diversas questões relacionadas à educação e que devem fazer parte da vida dos filhos. Por falta de um parâmetro, por não saber exatamente o que ensinar, acabam transferindo esta responsabilidade, muitas vezes, para a escola”,diz.

 

Para o psicopedagogo e mestre em educação Daniel Castilhos, pais estão delegando a educação ao negarem seu papel neste processo.

 

“É uma responsabilidade intransferível, pois esta função demanda um desgaste psíquico e pressupõe olhar para si e para este sujeito que está sendo construído”, analisa.

 

Doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano, Lilian Bacich corrobora a tese de que a escola está assumindo responsabilidades que são essenciais para que as famílias possam exercer seu papel na sociedade.

 

Como exemplo, ela aponta o fato de que crianças, antigamente, começavam a frequentar a escola com 6 ou 7 anos. Hoje, esse processo se inicia aos 4 meses de idade e algumas passam o dia inteiro na instituição.

 

“Será que a escola pode, em uma situação dessas, esperar que apenas a família ensine a criança como respeitar e ouvir o colega se, em casa, a criança não convive com pares da mesma faixa etária?”, questiona.

 

“Considero que cada vez mais há uma necessidade de diálogo, entre escolas e famílias para que esses papéis sejam compartilhados no que for preciso e tenham suas especificidades, principalmente em relação aos valores, que são característicos de cada família”, complementa.

 

Juliano Costa, diretor pedagógico da Pearson Brasil, cita o estudo “Behavioural Insights for Education: A practical guide for parents, teachers and school leaders” (“Ideias comportamentiais para a educação: um guia prático para pais, professores e líderes de escolas”, em tradução livre) elaborado pela empresa sobre comportamento escolar e parental.

A pesquisa aponta que ambientes de aprendizagem promovidos pelas famílias no espaço doméstico têm um impacto de até 17% no aprendizado das crianças na escola.

 

“Ambientes mais desafiadores, com um modelo mental focado no crescimento da criança e na responsabilidade por suas ações cotidianas, são extremamente saudáveis para o desenvolvimento infantil e adolescente. Porém, em virtude do preciosismo de algumas famílias, por terem apenas um ou dois filhos, esse tipo de atitude recai completamente sobre a escola”, lamenta.

 

Consequências
Para a psicóloga clínica Fabiana de Laurentis Russo, “a criança entende que limite é cuidado”. Ela defende que a educação que a criança recebe no núcleo familiar com valores, princípios, regras e limites, é extremamente importante para sua formação.

 

“Quando isso não ocorre de maneira adequada começam os problemas: a criança ganha rótulo de ‘criança-problema’, sofre pressão da escola e dos pais, desenvolve uma baixa auto-estima, tem baixo rendimento escolar e piora o comportamento para chamar atenção. É como um pedido de socorro”, explica.

“Outro perigo é que o valor que os filhos levarão consigo não será tão precioso. Ou seja, corre-se o risco da riqueza cultural da família não ser passada para a nova geração”, diz o mestre em Educação Geraldo Junio dos Santos, que alerta: as novas gerações podem construir seus próprios valores através de outras instituições como a escola, igreja ou apenas pelos amigos. “Sem falar no risco daqueles que recorrerão ao mundo virtual para responder a sua essência”, pondera.

 

Para Geraldo Junio, o problema maior está relacionado ao tempo que os pais passam com os filhos: “Trazê-los para fora de si a partir dos valores em que os pais foram educados requer tempo e diálogo permanente e, muitas vezes, esse período é consumido pelo trabalho.”

 

Já para a psicopedagoga e mestre em educação Daniela Felix Castilhos, a falha na educação familiar é um problema social. “Os pais possuem a informação de que o tempo dedicado aos filhos têm a ver mais com qualidade do que com quantidade. Não é apenas sentar ao lado do filho e jogar videogame, ou sentar com o filho para fazer tarefas, mas sim transmitir valores”, defende.

 

Qual a solução?
O problema de confundir educação com escolarização existe e é percebido pelos profissionais da educação, mas muitas vezes ignorado pelos pais. Mais do que esclarecer as diferenças entre os dois termos, é preciso ampliar o diálogo da família com a escola para que essa realidade mude.

 

Especialistas aconselham a escola a promover oficinas ou cursos de formação para auxiliar pais a lidarem com dúvidas em relação à educação dos filhos ou como proceder para ser parceiro na formação da criança, em relação à escola.

 

“A abertura para o diálogo entre educadores e pais é um passo importante para garantir a aproximação e, dentro das especificidades, não ocorrer uma divisão de papéis, mas uma somatória, um compartilhamento de ações para a formação integral dos estudantes”, conclui a psicóloga Lilian Bacich.

 

Avalie este item
(0 votos)

Mais notícias - Educação e Cultura

Cidades

    Política

      Tocantins

        Brasil

          Tocantins

            Opinião

              Topo