Brasil perde um mestre

Expoente da crítica literária no Brasil, Antonio Candido morreu nessa sexta-feira em São Paulo aos 98 anos. Candido escreveu teses e ensaios que influenciaram a crítica literária

 

Por Sérgio Rizzo

 

O crítico literário, ensaísta, professor e sociólogo Antonio Candido morreu na madrugada dessa sexta-feira (12), aos 98 anos, no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele estava internado desde o dia 6 deste mês, depois de ter uma “crise gástrica”, disse Laura Escorel, neta que morava com ele havia quatro anos. “Estamos em paz, ele esteve lúcido até o fim e não sofreu”, afirmou. Por sua obra, Candido venceu quatro vezes o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil. Em 1966, recebeu o Jabuti de personalidade do ano. Em 1998, venceu o prêmio Camões.

 

Autor de livros como “Introdução ao Método Crítico de Silvio Romero” (1944), “Formação da Literatura Brasileira” (1959) e “Literatura e Sociedade” (1965), entre muitos outros, Candido formou uma maneira de se pensar a literatura brasileira que influenciou toda a crítica literária do país desde então. Em 1956, ele criou o “Suplemento Literário” do jornal “O Estado de São Paulo”, caderno cultural que se tornou paradigma do jornalismo cultural no Brasil.

 

Ele se definia como um sobrevivente. “Sou provavelmente o último amigo vivo de Oswald de Andrade, um escritor dono de uma personalidade vulcânica”, comentou Candido, em rara entrevista, em Paraty, onde, em 2011, fez a conferência de abertura da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Como o homenageado era justamente o autor de “Marco Zero”, Candido decidiu quebrar seu silêncio – não gostava de ser entrevistado, tampouco de fazer aparições públicas.

 

Vida acadêmica. Antonio Candido nasceu no dia 24 de julho de 1918, no Rio de Janeiro, e depois de passar a infância nos limites entre Minas Gerais e São Paulo, se estabeleceu na capital paulista em 1937. Ingressou e abandonou a Faculdade de Direito da USP para, em 1942, se graduar em filosofia.

 

Tinha início uma carreira universitária brilhante. Em 1945, com a tese “Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero”, tornou-se livre-docente em Literatura Brasileira pela USP. Em 1954, recebeu o título de doutor em Ciências Sociais com a tese “Os Parceiros do Rio Bonito”. E, em 1960, assumiu o cargo de professor de teoria literária e literatura comparada na FFLCH. Aposentado da instituição em 1978, continuou a orientar dissertações e teses de pós-graduação.

 

Em 1958, Candido assumiu o cargo de professor de teoria literária na Faculdade de Filosofia de Assis, hoje pertencente à Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde passou dois anos. De 1976 a 1978, coordenou o Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No exterior, lecionou na Universidade de Paris, de 1964 a 1966, e na Universidade Yale, em 1968.

 

Crítico. A carreira de crítico literário na imprensa teve início em 1943, quando começou a escrever para a “Folha da Manhã”, que deu origem à “Folha de S.Paulo”. Ainda nos anos 1940, foi crítico do “Diário de São Paulo”. E, em 1956, fez o projeto do “Suplemento Literário” de “O Estado de São Paulo”, que ajudou a modernizar o jornalismo cultural brasileiro.

 

Candido foi também um dos fundadores da lendária revista cultural “Clima”, que publicou apenas 16 números, entre 1941 e 1944, mas que revelou um grupo de intelectuais de atuação marcante no cenário cultural e universitário paulista: Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, com quem Candido se casou em 1943, quando ela adotou o nome Gilda de Mello e Souza. O casal teve três filhas: Ana Luiza, Laura e Marina. Gilda morreu em 2005.

 

Militante. A militância política de Candido começou ainda na juventude, como integrante da Frente de Resistência contra a ditadura do Estado Novo. Em 1942, ele participou da criação do Grupo Radical de Ação Popular. Três anos depois, ajudou a fundar a União Democrática Socialista. Logo em seguida, aderiu – ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, um de seus grandes amigos – à Esquerda Democrática, que daria origem em 1947 ao Partido Socialista Brasileiro, pelo qual Candido foi candidato a deputado estadual em 1950. Teve pouco mais de 500 votos.

 

Em 1966, ao voltar da temporada em Paris, manifestou seu apoio ao MDB. Em 1977, assinou o Manifesto dos Intelectuais, que pedia o fim da censura. E, em 1980, participou da fundação do PT. “Confesso que por toda a minha vida, mesmo nos momentos mais agudos, nunca fui capaz de perder a preocupação com os fatores sociais e políticos, que obcecaram a minha geração como uma espécie de memento e quase de remorso”, disse em entrevista à revista acadêmica “Trans-form-ação”, em 1975.


Despedida


Velório. Antonio Candido foi velado nessa sexta (12) no hospital Albert Einstein. Entre os presentes estava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O corpo será cremado neste sábado (13) em uma cerimônia só para familiares e amigos. Ele deixou orientações para que suas cinzas sejam misturadas às de sua mulher, Gilda de Mello e Souza, e que depois sejam colocadas em um jardim.


Antonio Candido

Intérprete da literatura brasileira

Autor de grandes ensaios, crítico convidava o leitor a conhecer e a amar as produções de escritores nacionais

SÃO PAULO. A obra de Antonio Candido, morto nessa sexta-feira (12), em São Paulo, que provocou maior impacto e consolidou seu nome como um crítico referencial foi “Formação da Literatura Brasileira” (1959), escrito como introdução a um estudo de Machado de Assis, que ele considerava “um dos maiores do século XIX” entre escritores de todas as línguas. Nesse livro, são analisadas as etapas de formação de um “sistema literário” no Brasil. “Comparada às grandes, nossa literatura é pobre e fraca”, dizia ele. Apesar disso, convidava o leitor a amá-la para, assim, compreendê-la.

 

“Não sou um teórico da literatura, mas um crítico literário”, ponderava. A teoria, em sua prática, fornecia apenas ferramentas de análise. “Procuro fazer uma crítica de vertentes, que acompanhe os problemas da obra”, explicava. Ao fundar essa nova abordagem e com ela explorar a tradição literária brasileira, estava em sintonia com as gerações de intelectuais que, ao longo do século XX, se propuseram a pensar o Brasil de uma maneira nova, como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e o grupo da revista “Clima”.

 

No prefácio da quinta edição revista de “Raízes do Brasil”, de Buarque de Holanda, Candido equiparou o livro a “Casa Grande & Senzala” (de Freyre) e “Formação do Brasil Contemporâneo” (de Prado Júnior). Esses três clássicos, segundo ele, teriam feito sua geração “adquirir uma noção de Brasil”. Atribuía também seu processo de formação intelectual à proximidade com os modernistas paulistas e ao contato com os professores da missão francesa que fundou a Faculdade de Filosofia da USP, com destaque para o sociólogo Roger Bastide e o filósofo Jean Magüe.

 

Na extensa obra de Candido, outros livros de destaque são “Ficção e Confissão” (1956), com ensaios sobre Graciliano Ramos; “Os Parceiros do Rio Bonito” (1964), baseado em sua tese de doutorado, sobre o cururu, dança cantada do interior paulista, indicativa de uma sociedade rural em mutação; “O Discurso e a Cidade” (1993), com ensaios sobre “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antonio de Almeida, e “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, entre outros; e “O Albatroz e o Chinês” (2004), com ensaios sobre Eça de Queirós, João Antonio e Charles Baudelaire.

 

Em “Um Funcionário da Monarquia” (2002), ele recriou a trajetória do avô de sua mãe, Antonio Nicolau Tolentino, empregado de segundo escalão do reinado de dom Pedro II. Foi também organizador de “Capítulos de Literatura Colonial” (1991), reunindo textos de Buarque de Holanda, e de “Sergio Buarque de Holanda e o Brasil” (1998). E, entre as diversas obras sobre ele, incluem-se “Antonio Candido: Pensamento e Militância” (1999), organizado por Flávio Aguiar, e “Bibliografia de Antonio Candido e Textos de Intervenção” (2002), organizado por Vinicius Dantas.

 

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